Nem toda melhora é uma cura. Neste artigo, vamos entender por que, em um processo psicoterapêutico, sentir-se melhor por um momento não significa que a dor foi transformada — e como o EMDR nos leva além da superfície.
Antes, porém, vamos olhar para nossa experiência cotidiana. Você já deve ter notado que todos nós passamos por momentos em que nos sentimos emocionalmente mobilizados. Quando a emoção é positiva – no sentido de nos elevar, nos deixar de bom humor ou mais expansivos –, tendemos a recebê-la de bom grado e desejamos que ela perdure. Mas quando a emoção é negativa – e nos “puxa para baixo” ou “agita” a estabilidade do nosso cotidiano –, nossa reação geralmente é de resistência. Buscamos formas rápidas de fazê-la desaparecer, desejando “voltar ao normal” o quanto antes.
Cada pessoa desenvolve suas próprias estratégias para lidar com situações assim. Algumas estratégias são mais saudáveis e adaptativas do que outras, mas todas têm a mesma intenção: levar-nos de um estado emocionalmente desconfortável para outro mais suportável. Esse movimento, do desconfortável para o suportável, é o que chamamos de mudança de estado.
Quando uma pessoa procura psicoterapia, muitas vezes está em busca justamente desse alívio: deseja sentir-se menos ansiosa, menos triste, menos reativa. Espera que as sessões funcionem como um bálsamo imediato para o sofrimento que a acompanha. E, de fato, em muitos momentos do processo terapêutico, especialmente na Fase 2 do EMDR, o que se alcança são essas mudanças de estado – pequenos respiros de bem-estar no meio da dor. No entanto, por mais valiosos que sejam, esses alívios não representam uma mudança “estrutural”.
É apenas quando acessamos as experiências que moldaram nossos padrões emocionais e comportamentais – e as reprocessamos de forma segura – que ocorre o que chamamos de mudança de traço. É quando o passado não só deixa de doer, mas também perde a força de determinar como reagimos no presente.
Vamos entender melhor essa diferença.
“Eu senti uma melhora, mas voltou tudo de novo”
Quantas vezes você ou um paciente já não passou por isso? Após uma conversa, uma sessão ou técnica terapêutica vem um alívio. A respiração se acalma, a mente clareia, a emoção arrefece. Mas dias (ou horas) depois, basta um gatilho e tudo volta: a sensação antiga, o pensamento ruminante, o aperto no corpo, aquele sofrimento atroz.
Essa experiência não significa que o processo falhou. Ela nos mostra que o que houve foi uma mudança de estado, não uma mudança de traço.
A mudança de estado acontece quando a pessoa experimenta um alívio temporário: o corpo sai do estado de alerta, a mente desacelera, a emoção se regula. É uma mudança valiosa e pode ser profundamente restauradora, mas é passageira. É como uma brisa que passa: você sente o efeito, mas se o vento muda, o estado também muda.
Mudança de estado = Alívio ou melhora temporária
A mudança de traço, por outro lado, ocorre quando a estrutura interna realmente reorganiza suas conexões: crenças limitantes se transformam, memórias traumáticas são ressignificadas, respostas automáticas são substituídas por outras mais adaptativas.
É uma mudança duradoura na forma como a pessoa se percebe, sente ou age. Não é apenas uma sensação momentânea, mas uma verdadeira reconfiguração interna. A mudança de traço significa que a nova forma de sentir ou pensar se tornou parte do jeito de ser da pessoa, mesmo diante de novos desafios.
Mudança de traço = Transformação duradoura e incorporada ao jeito de ser
Imagine que suas emoções e reações são como a temperatura de uma casa. A mudança de estado é como abrir as janelas em um dia fresco: o ar entra, a casa fica mais agradável. Mas assim que você fecha as janelas ou o clima lá fora muda, a casa volta à temperatura de antes. É uma mudança boa, mas temporária. Já a mudança de traço é como instalar um sistema novo de aquecimento ou refrigeração dentro da casa. Agora não importa o que esteja acontecendo lá fora, a temperatura interna continua confortável e estável, porque algo foi transformado na estrutura da casa.

O papel da Fase 2 no EMDR
No protocolo do EMDR, a Fase 2 é dedicada à preparação: desenvolver recursos, ampliar a janela de tolerância, criar uma base segura para o reprocessamento que virá depois. Nessa fase, conseguimos, muitas vezes, mudanças de estado. É quando o paciente aprende a se regular melhor, a acessar imagens e sensações de segurança, a entrar e sair de estados emocionais desconfortáveis com mais autonomia. Mas essas mudanças ainda não são estruturais. Elas não mexem na raiz da dor. Elas são como pausas na tempestade: o céu clareia por um tempo, mas a raiz do sofrimento ainda está ali.
É importante reconhecer que, nessa fase, muitos pacientes podem se sentir frustrados. Eles estão sofrendo intensamente e querem uma transformação rápida. A dor faz parecer que qualquer passo que não traga alívio imediato não vale a pena. Mas é justamente nesse ponto que o sistema* precisa de mais cuidado – e não de pressa.
Se o terapeuta avança antes da hora, pode reativar defesas e memórias para as quais o paciente ainda não tem recursos suficientes de enfrentamento. Por isso, dependendo do quadro clínico, desacelerar pode ser, paradoxalmente, o caminho mais seguro para que a verdadeira transformação aconteça.
Na outra ponta, algo que acontece com frequência nas sessões de EMDR é o paciente querer falar longamente sobre os acontecimentos da semana ou sobre seus sintomas em vez de seguir para o reprocessamento dos alvos previamente definidos. Isso é completamente compreensível. Muitas pessoas chegam ao EMDR com a referência tradicional de psicoterapia em mente – aquela em que o processo de cura passa essencialmente pela conversa, pela análise verbal, pelo contar e recontar da própria história. Falar torna-se, então, quase sinônimo de elaborar.
De fato, a fala tem um papel importante; ela organiza, alivia, dá nome ao caos interno. E dentro da Fase 2 do protocolo de EMDR, esse tipo de conversa pode ser essencial: ajuda a construir a aliança terapêutica, amplia a consciência do paciente sobre seus próprios padrões e oferece espaço para que recursos importantes sejam desenvolvidos.
No entanto, é fundamental compreender que falar não reprocessa. A linguagem verbal habita principalmente o hemisfério esquerdo do cérebro – o mais lógico, analítico e sequencial. Já o trauma está enraizado em regiões do cérebro muito mais antigas e profundas, em áreas que não “entendem” palavras, mas respondem a sensações, imagens, movimentos, ritmos e emoções. Por isso, ainda que falar possa acalmar ou esclarecer, não é suficiente para dissolver as marcas traumáticas.
O EMDR propõe algo diferente: acessar diretamente as memórias que foram armazenadas de forma disfuncional e permitir que o cérebro, por meio da estimulação bilateral e de um protocolo cuidadosamente estruturado, complete o que ficou inacabado. É aí que a transformação acontece. E para que isso seja possível, o processo precisa ir além da fala.
Logo, para alcançar uma mudança de traço – aquela que transforma o modo como a pessoa sente, pensa e reage de forma duradoura –, precisamos avançar para as fases seguintes, onde os eventos traumáticos são reprocessados e ressignificados (Fases 3 a 8). É aí que a ferida deixa de sangrar internamente. É aí que o trauma perde o poder.
Reprocessar para transformar: as Fases 3 a 8
A partir da Fase 3, entramos na escolha e ativação dos eventos traumáticos, que chamamos de “alvos”, isto é, as memórias perturbadoras que armazenam a dor original. Por meio da estimulação bilateral, o cérebro é estimulado a reprocessar essas experiências “mal digeridas”. O que era vivido como “ainda está acontecendo” é finalmente reconhecido como “já passou”. A crença de perigo ou incapacidade dá lugar a uma crença de competência e segurança. É nesse ponto que ocorre a mudança de traço. Aqui o paciente não apenas sente de modo diferente: ele está diferente e reage de modo diferente diante do mesmo gatilho.
Isso não significa que a mudança de estado é menos importante. Pelo contrário, ela é fundamental. Sem a regulação emocional e a segurança conquistadas na Fase 2, o sistema* não teria condições de acessar o material mais profundo com estabilidade, isto é, sem se desorganizar, retraumatizar ou dissociar. Como já mencionado, é nessa fase que o paciente aprende a reconhecer seus próprios sinais de sobrecarga, a ampliar sua janela de tolerância e a desenvolver recursos internos que lhe permitam ficar consigo mesmo, mesmo quando a dor vier à tona.
Esses recursos – como visualizar um lugar seguro, cultivar figuras de apoio internas, fortalecer o eu adulto – não são uma preparação irrelevante para o reprocessamento: eles são o alicerce que sustenta o mergulho que virá. E, muitas vezes, só de começar a experienciar esses estados de maior calma e contenção, o paciente já começa a ter experiências corretivas importantes: ele percebe que pode se autorregular, que não precisa mais ser engolido pela emoção, que é possível encontrar refúgio dentro de si.
Esta é a beleza da mudança de estado: ela não resolve o trauma, mas mostra ao paciente que o trauma pode, sim, ser resolvido. Por isso, a mudança de estado é o caminho para a mudança de traço. Elas não são opostas: são degraus na mesma escada. A Fase 2 acalma; as demais fases transformam.
Conclusão
Entender a diferença entre mudança de estado e mudança de traço é essencial para acolher o ritmo do próprio processo terapêutico. Nem toda melhora imediata significa que a dor foi curada e nem toda dor recorrente é sinal de fracasso. Às vezes, o cérebro ainda está construindo a base que tornará possível uma mudança mais profunda.
No EMDR, a transformação acontece passo a passo. Alívio e regulação emocional não são atalhos, mas partes do caminho. Cada respiração mais tranquila, cada momento em que o paciente percebe que não está mais tão à mercê da emoção, é uma conquista significativa. Esses momentos são como pequenas janelas que se abrem e anunciam que algo maior é possível.
A verdadeira mudança — aquela que ressignifica o passado e altera profundamente a forma como a pessoa se relaciona consigo mesma, com os outros e com o mundo — exige tempo e cuidado. E o EMDR, com sua base neurobiológica e seu respeito ao ritmo interno, oferece exatamente isso: um caminho seguro do alívio à transformação.
*Sistema aqui significa o conjunto integrado e interdependente de componentes físicos, emocionais, cognitivos e neurológicos que constituem a maneira como uma pessoa percebe, sente, reage e se autorregula diante das experiências da vida.
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Achei muito boa toda essa explanação. O texto é bem embasado, rico de informações, claro e de fácil compreensão.
Sou bem curiosa e confesso que fiquei com vontade de experimentar o EMDR.
Parabéns pelo post.
Maravilhoso artigo.
Muito esclarecedor.
Excelente explanação. Muito informativa.