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Pensamento mágico: o refúgio ilusório do ansioso

A ansiedade é uma resposta emocional natural e adaptativa a situações percebidas como ameaçadoras, desafiadoras ou incertas, sejam elas reais ou imaginárias. Ela se caracteriza por sentimentos de preocupação e apreensão ou medo, acompanhados de manifestações físicas e cognitivas. Embora seja uma reação normal do organismo, a ansiedade pode se tornar disfuncional quando é desproporcional ao estímulo, ocorre de forma excessiva ou persistente e prejudica o funcionamento diário de uma pessoa. Quando a ansiedade se torna disfuncional, dizemos que a pessoa tem um transtorno de ansiedade.

Quando uma pessoa está ansiosa e sua mente encontra-se imersa em cenários de medo, surge a tendência natural a buscar respostas rápidas e ilusórias como forma de aliviar o desconforto emocional e exercer algum controle sobre os eventos. Nesse contexto, o pensamento mágico pode surgir como uma forma de reduzir a incerteza e aumentar a sensação de controle e segurança.

O pensamento mágico é um modo de pensar caracterizado pela crença de que os pensamentos, desejos e palavras de uma pessoa podem influenciar o mundo externo de modo direto, isto é, de forma imediata e concreta, sem qualquer intermediação. Por meio do pensamento mágico, estabelece-se a ideia de que existe uma relação de causalidade entre eventos que, na realidade, não estão conectados.

Segundo o antropólogo Phillips Stevens Jr., crenças mágicas manifestam-se em maneiras de pensar baseadas em princípios de cosmologia e causalidade que são atemporais e absolutamente universais. Tais princípios seriam inatos na espécie humana – ou seja, fariam parte da química ou da composição de nosso cérebro e nos ajudariam a dar sentido à nossa existência.

De acordo com Stevens, cinco são os princípios básicos comuns a todas as formas de pensamento mágico encontradas desde os tempos pré-históricos:

  1. Forças da natureza: A maioria dos povos parece acreditar em forças na natureza que são separadas e operam independentemente de quaisquer seres espirituais e também são separadas daquelas forças identificadas e medidas pela ciência – por exemplo, gravidade, eletromagnetismo e as forças nucleares forte e fraca.
  2. Poder: As forças da natureza, e tudo o mais, são energizados por um poder místico que existe em vários graus em todas as coisas. O poder é transferível por meio de contato físico, percepção sensorial ou mera proximidade.
  3. Um cosmos coerente e interconectado: Acredita-se amplamente que tudo no cosmos é real ou potencialmente interconectado por fios invisíveis, não apenas espacialmente, mas também temporalmente — passado, presente e futuro.
  4. Símbolos: Símbolos são objetos, palavras, pensamentos ou ações que não apenas representam outras coisas ou ações, mas podem assumir as qualidades das coisas que representam. Se a coisa que o símbolo representa tem poder, o símbolo se tornará poderoso.
  5. Princípios de Frazer (Sir James George Frazer): 1) A “magia homeopática” funciona de acordo com a “lei da similaridade” — coisas ou ações que se assemelham a outras coisas ou ações têm uma conexão causal. 2) A “magia contagiosa” obedece à “lei do contato” — coisas que estiveram em contato físico ou em associação espacial ou temporal com outras coisas mantêm uma conexão após serem separadas.

O pensamento mágico é típico de crianças pequenas, que ainda não desenvolveram plenamente o pensamento lógico, mas também aparece nas demais faixas etárias em contextos supersticiosos, místicos e espirituais como uma resposta diante de situações imprevisíveis ou desafiadoras. Isso porque o pensamento mágico:

  • oferece uma ilusão de controle sobre circunstâncias que, na realidade, escapam ao domínio da pessoa;
  • oferece alívio imediato, embora temporário, do desconforto emocional;
  • é reforçado culturalmente – por exemplo, evitar passar por baixo de escadas ou acreditar que “bater na madeira” afasta o azar;
  • é “capitalizado” por tendências new age ou pseudocientíficas, como, por exemplo, a “Lei da Atração”, que propõe que o simples ato de pensar em algo repetidamente pode materializá-lo, como se o universo respondesse às intenções individuais.

Exemplos de pensamento mágico:

  • Usar a mesma roupa ou caneta antes de uma prova importante, por acreditar que isso melhorará o desempenho.
  • Sentar no mesmo lugar ou vestir uma camisa específica visando influenciar o resultado de um jogo.
  • Superstições.
  • Realizar simpatias.
  • Se eu pensar positivamente, só coisas boas acontecerão na minha vida.
  • Pensar em coisas negativas vai atrair coisas negativas.
  • Dizer coisas negativas vai atrair coisas negativas.
  • Se eu pensar em algo que me causa medo, esse algo vai se concretizar.
  • Palavras têm poder (têm, mas não no sentido mágico).
  • Se eu visualizar riqueza todos os dias, o dinheiro virá até mim.
  • Se eu agir como se já tivesse o que desejo, meu desejo se materializará.
  • Se eu pisar apenas em ladrilhos brancos, nada de mal vai me acontecer.
  • Se eu rezar três vezes essa oração, minha mãe não vai adoecer.
  • Se eu lavar as mãos exatamente sete vezes, vou evitar que algo de ruim aconteça com minha família.

Ao oferecer uma sensação temporária de controle e segurança em momentos de vulnerabilidade, o pensamento mágico pode parecer inofensivo, e até reconfortante, quando não interfere na vida de forma prejudicial. Todos nós vamos manifestar pensamentos mágicos em uma ou outra ocasião; afinal, o pensamento mágico nos ajuda a lidar com os desafios da existência.

Contudo, quando conectado à ansiedade, o pensamento mágico pode reforçar padrões de comportamentos disfuncionais, intensificando o ciclo ansioso. A falsa promessa de segurança que o pensamento mágico oferece não resolve as causas subjacentes da ansiedade e, muitas vezes, contribui para o afastamento de soluções racionais e funcionais.

O impacto do pensamento mágico na mente ansiosa

Do ponto de vista neuropsicológico, o cérebro ansioso está em hipervigilância e busca padrões ou explicações que minimizem a percepção de ameaça. O pensamento mágico serve como uma “solução rápida” para o sentimento de desamparo, mesmo que seja irracional.

Todavia, embora o pensamento mágico possa proporcionar alívio temporário, no longo prazo, mantém a ansiedade ao não lidar diretamente com as causas reais, e pode levar a comportamentos evitativos ou compulsivos, que acabam por cronificar a ansiedade. Em outras palavras, o pensamento mágico, no contexto da ansiedade, piora o problema que pretende resolver.

De que modo, então, o pensamento afeta a realidade?

O pensamento, embora não tenha poderes místicos ou mágicos, pode afetar a realidade de forma concreta e mensurável através de processos neurobiológicos, psicológicos e comportamentais. A chave está na forma como nossos pensamentos influenciam nossas emoções, expectativas, ações e a interpretação da realidade ao nosso redor. Dito de outro modo, nossos pensamentos afetam diretamente o nosso mundo interno, que, por sua vez, afeta o mundo externo por meio do nosso comportamento.

Os pensamentos moldam como nos sentimos (e vice-versa) e, em consequência, como nos comportamos. Nossos comportamentos, por sua vez, afetam nossos resultados concretos na vida.

Quando acreditamos que temos a capacidade de resolver um problema (pensamento positivo realista), aumentamos nossa motivação e disposição para agir. Isso gera comportamentos que aumentam nossas chances de sucesso.

Exemplo:
Pensamento: Eu consigo estudar e passar nessa prova.
Comportamentos: Organizar-se, estudar e preparar-se para a prova.
Resultado: Aumenta as chances de passar na prova.

Pensamentos negativos como “não sou capaz” ou “tudo vai dar errado” podem gerar ansiedade ou apatia, levando a comportamentos evitativos ou à procrastinação.

Quando acreditamos que um tratamento ou determinada ação terá um efeito positivo (efeito placebo), nosso cérebro pode liberar substâncias químicas que reduzem ou até mesmo eliminam sintomas físicos. Há inúmeros relatos, por exemplo, de pessoas que ficaram curadas de doenças graves, como câncer e Parkinson, simplesmente devido ao efeito placebo.

Exemplo: Em testes clínicos, pílulas de farinha dadas como “medicamento eficaz” aliviam ou levam à remissão completa de sintomas em alguns pacientes simplesmente porque eles acreditam no tratamento.

O efeito placebo é tão poderoso que há cientistas dedicados a estudá-lo na esperança de descobrir como ativá-lo diretamente em nosso cérebro.

Se você pensa constantemente (está focado) em oportunidades de trabalho, seu cérebro passa a notar mais anúncios, conversas ou situações relacionadas a isso. Um exemplo pessoal, que ocorre sempre que aprendo uma palavra ou expressão nova em inglês, é que aquela palavra ou expressão “começa a aparecer” em vários contextos diferentes (artigos, livros, podcasts, filmes). Da mesma forma, focar apenas em problemas e falhas faz com que você perceba mais aspectos negativos ao seu redor.

Isso ocorre porque o pensamento direciona nossa atenção, o que influencia as escolhas e ações que tomamos.

Você conhece a história de Édipo, que serviu de inspiração para o conceito de Complexo de Édipo de Freud? Pois bem, segundo a tragédia, escrita por Sófocles, o Oráculo de Delfos profetiza para Laio, rei de Tebas, que seu filho irá matá-lo e casar-se com a própria mãe. Para evitar que tal profecia se realize, Laio abandona o filho no monte Citerão, fixando um prego em cada pé para tentar matá-lo. O menino, no entanto, é recolhido por um pastor e batizado de Édipo (“pés furados”). Posteriormente, Édipo é adotado pelo rei de Corinto e volta para Delfos. No caminho, Édipo encontra um homem com quem briga e a quem acaba matando. Este homem, ele não o sabia, era seu pai Laio. Após derrotar a Esfinge que aterrorizava Tebas, Édipo segue para sua cidade natal, onde encontra Jocasta, com quem casa e tem quatro filhos. Quando da consulta do Oráculo por ocasião de uma peste, Jocasta e Édipo descobrem que são mãe e filho. Ela comete suicídio e ele fura os próprios olhos por ter estado cego e não ter reconhecido a própria mãe.

Observe que o que Laio, pai de Édipo, fez para evitar a profecia foi justamente o que levou a profecia a se cumprir. Este fenômeno é chamado de profecia autorrealizável e mostra como nossas crenças podem criar as condições para que aquilo em que acreditamos aconteça. Nas palavras de Paul Watzlawick, “a predição do acontecimento leva ao acontecimento da predição”.

Exemplo: Acreditar que “todos vão me rejeitar” faz com que você aja de forma defensiva e retraída, provocando exatamente o distanciamento que você temia, levando-o a interpretar este distanciamento como uma confirmação de que, de fato, os outros o estão rejeitando.

Em resumo, os pensamentos são poderosos, mas não afetam a realidade externa de modo direto, como se uma energia emanasse de nossa mente e mudasse a estrutura íntima das coisas. Se assim fosse, não haveria pobreza, doença, guerras, dor e sofrimento; bastaria cada um de nós usar a “força do pensamento” para mudar o que quer que quiséssemos ver mudado (o que criaria uma série de novos problemas, já que o desejo de um indivíduo não é necessariamente o desejo de outro).

Ter pensamentos mágicos, em si, não é o problema (quem não os tem?). No contexto da ansiedade, mais especificamente no caso de transtornos de ansiedade, o problema é acreditar piamente que seus pensamentos possuem o poder sobrenatural de interferir diretamente no mundo fora de você.

Rian McMullin, psicoterapeuta cognitivo, é bastante didático sobre este tema no textinho que escreveu, certa vez, para um de seus pacientes:

Todos nós vivemos em duas dimensões: a interna e a externa. O que acontece em uma dessas dimensões não pode influenciar a outra, a menos que se construa uma ponte que as conecte. Seus pensamentos pertencem à dimensão interna, ou seja, eles estão dentro de seu corpo. Considerando que a medula conecta o cérebro a vários sistemas, seus pensamentos exercem, portanto, algum poder sobre seu corpo. Podem produzir alterações no sistema digestivo, causando problemas no estômago; no sistema respiratório, causando asma e hiperventilação; no sistema cardiovascular, causando taquicardia e pressão alta; no sistema endócrino, secretando hormônios que causam pânico, raiva ou desespero; nos sistemas imunológico e linfático, provocando um decréscimo na capacidade de defender-se contra infecções; no sistema muscular, causando enxaquecas ou dores nas costas; no sistema reprodutor, fazendo com que fique excitado ou impotente.

Seu cérebro, porém, não está conectado a sanduíches de presunto, à bolsa de valores, a contas bancárias, aos sistemas atmosféricos ou ao complexo industrial e militar dos países. Tudo isso pertence à segunda dimensão (fora de você) e, por mais que pense e deseje (dentro de você), não conseguirá modificá-la.

Se pretende mudar a dimensão externa e fazer alguma diferença neste mundo, é melhor que construa uma ponte – uma ponte entre seu interior e o mundo que o cerca. Ela até já existe: chama-se comportamento.

Autores citados neste artigo:
Phillips Stevens Jr: Magical Thinking in Complementary and Alternative Medicine
Paul Watzlawick : Sempre Pode Piorar ou A Arte de Ser Infeliz
Rian McMullin: Manual de Técnicas em Terapia Cognitiva

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